quarta-feira, 5 de outubro de 2011

E foi assim, um encontro inesperado. V

Um romance a minha maneira.


A construção no prédio às vezes a impedia de fazer suas ligações diárias. Irritada, tentava não pensar no tempo que estava perdendo ali. Era uma moça sonhadora. Desejava viajar o mundo a começar pelos cantos pouco conhecidos do Brasil. Como não tinha dinheiro e muito menos coragem se contentava em assistir a séries de TV. O pedreiro se aproximou e o som da furadeira se tornou ensurdecedor. Pelo corredor, impaciente ela resmungava palavrões. Por sorte seu chefe não ouviu. Eufórico trazia as notícias de que fariam umas mudanças no setor da empresa. Coisas simples, apenas reposicionariam os setores.
Papéis, arquivos e coisas miúdas. Era uma sala branca com detalhes em lilás onde a decoradora, de muito bom gosto por sinal, posicionou uma fonte junto à imensa janela de vidros. Atenta aos detalhes e à organização, Ana nem percebeu que o seu novo escritório dava frente ao do novo colega de trabalho.
De olhos fechados repousou em sua poltrona de veludo bege. Estava cansada. Girando de um lado pro outro ouvia o barulho acolhedor das águas. Se abrisse os olhos nesse instante veria Gerard em silêncio reparar em sua brincadeira.
Pelo Skype, os funcionários foram chamados a comparecerem ao refeitório. O imenso bolo em homenagem aos 10 anos da empresa chamou a atenção de Ana que salivando ansiosa esperava pela primeira mordida. O diretor da empresa apresentou a todos o funcionário recém-chegado. Ela estremeceu-se, seus olhos brilharam. Propositalmente estava bem vestida e maquiada levemente de forma que a cor castanha de seus olhos se destacou pelos traços de Creon. A alguns metros Gerard conversava com outros homens, porém não deixava de retribuir aos flertes de Ana. Cena impactante. Se cupidos existem, suas flechas se acabaram naquele momento.

E foi assim, um encontro inesperado. IV

Um romance à minha maneira.


O trajeto entre a veterinária e o serviço não era muito longo. Enquanto observava as árvores no canteiro da estrada, Ana se lembrava da infância. Como era atrevida. Subia em árvores, jogava pingue-pongue e batia nos meninos maldosos. Sempre assim, uma justiceira.
Chegou à porta do prédio. Desceu do carro sentindo o toque leve da brisa matutina. Algo bom aconteceria, afirmou. Ouviu vozes no salão de reuniões enquanto entrava em seu escritório. Ainda restavam alguns minutinhos antes da jornada de trabalho. Decidiu tomar um pouco de ar na sala de espera. Surpreendeu-se. Seu corpo respondeu rapidamente à visão. Respirou fundo, não queria que percebessem suas mãos frias e trêmulas. Esperou. Inspirou. Expirou. Com sorriso nos lábios cumprimentou a todos na sala. Bom dia! Que bom você por aqui. Pelo que vejo o projeto não ficará somente no papel, disse. Ele respondeu sorrindo. Ana nem se quer o escutou. Estava em êxtase. Apaixonada.
Seu nome era Gerard. Seus pais irlandeses vieram ao Brasil junto aos avós em meados da década de 60. Pele clara, olhos verde-escuros, cabelos castanhos. Todas as características de um fiel descendente irlandês. Tinha um pé em touro e outro em gêmeos. Essa mistura de signos fazia de sua personalidade um tanto quanto única. Introspectivo e comunicativo. Tranqüilo ao fazer suas diversas atividades simultâneas. Tímido mas engraçado e irônico. Era assim um dueto harmônico em uma só pessoa.